segunda-feira, 30 de março de 2009

OS PRESBÍTEROS SÃO PASTORES?

Numa recente Convenção Regional de nossa Denominação um dos preletores, numa de suas palestras, trouxe “uma nova verdade” para os convencionais, dizendo que os Presbíteros de uma igreja local são os seus Pastores, indistintamente. O palestrante baseou a sua assertiva no texto de 1 Pe 5.1-4. Na sua exposição o ilustre Pastor, ou melhor, Presbítero já que ele disse que era a mesma coisa, não fez nenhuma diferenciação entre Pastores e Presbíteros, e, consequentemente, não identificou os Pastores como os líderes de uma igreja local. Para reforçar o seu argumento ele fez menção ao sacerdócio universal dos crentes, em que todos os crentes são iguais e que não existe entre eles uma hierarquia sacerdotal como se tinha na antiga dispensação.
A palavra do Pastor, aliás, Presbítero, foi muito boa a não ser num detalhe sutil, mas perigoso para o ministério convencional das Igrejas Congregacionais, que já enfrentam, algumas delas, muitas dificuldades na área de liderança.
À bem da verdade, é de suma importância que tragamos um esclarecimento sobre o assunto, baseado nas Escrituras já que presentes a essa Convenção estavam Pastores, Presbíteros, Evangelistas, Missionárias e delegados de igrejas que não ocupam posição de liderança dentro delas no que se refere aos seus ofícios.
Observem os irmãos que Pedro no início de suas duas cartas apresenta aos seus leitores a credencial de apóstolo de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Pe 1.1; 2 Pe 1.1). “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo...” 1 Pe 1.1. Na sua primeira carta, no capítulo 5.1-4, Pedro se identifica com os Presbíteros no que se refere ao ministério de supervisão da igreja. “... admoesto eu, que sou também presbítero como eles” 1 Pe 5.1. Na leitura desses dois textos podemos constatar com facilidade que o ofício de Pedro na igreja do Senhor era o de Apóstolo e desse ofício ele não abria mão, como enviado que era do Senhor com comissão exclusiva (Veja Mt 10.1-5), mas que também era um Presbítero no sentido de ser um supervisor da obra do Senhor, ou seja, Pedro era Apóstolo e era também Presbítero, mas os Presbíteros não eram Apóstolos, pois para isso teriam que ter uma chamada exclusiva para aquela função, conforme os Apóstolos tiveram.
Escrevendo aos Efésios (4.11), o apóstolo Paulo, outro que não abria mão de seu ofício nem de sua autoridade apostólica, revela que Deus graciosamente deu a igreja para promover o seu crescimento harmonioso, dons de liderança, com as identificações de Apóstolos, Profetas, Evangelistas, Pastores e Mestres. “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres” Ef 4.11. Destacamos neste texto que os ministros citados são dádivas exclusivas de Deus a igreja, e isto pressupõe uma chamada específica para esses ministérios. Como os ofícios estão blocados num texto só, não temos dúvidas de usar o mesmo critério de interpretar a questão como foi tratados os textos de 1 Pe 1.1. e 1 Pe 5.1 e, por analogia, concluir, que assim como o ofício de Apóstolo é distinto do ofício de Presbítero por natureza, assim também o é o ofícios de Pastor, ou seja um Pastor é um Presbítero também no sentido de ter sobre si a responsabilidade de pastorear o rebanho de Deus, mas nem todo Presbítero é um Pastor, porque para esse último pressupõe uma chamada exclusiva conforme explicitado acima.
Não nos revela a Escritura que exista uma chamada especifica para ser Presbítero de uma igreja neotestamentária. Os textos que tratam do assunto mostram um líder (Apóstolo ou Pastor) capitaneando o processo de escolhas desses oficiais, como foi o caso dos Apóstolos Paulo e Barnabé em At 14.23 e o Pastor Tito em Tt 1.5. Observando o perfil dos Presbíteros delineado por Paulo em 1 Tm 3.1-7 e Tt 1.5-9, e o contexto dessas duas escrituras, podemos concluir que necessariamente não haveria a necessidade de uma chamada específica para exercer esse ministério no seio da Igreja, mas uma vez aprovado pela igreja e consagrado, esses oficiais passaram a ser constituídos por Deus para ajudar no pastoreio da Igreja do Senhor, conforme At 20.28 e 1 Pe 5.1-4. A diferença é sutil, é verdade, mas fundamental. Nunca se ouviu alguém manifestar um intenso desejo de ser Presbítero de uma igreja e em função dessa chamada deixar tudo e priorizá-la sobre tudo e todos para se envolver no pastoreio do rebanho, muito pelo contrário, o contexto nos dá a entender e a história eclesiástica o confirma que muitos Presbíteros continuaram ou continuam em seus afazeres seculares a exercerem essa função na Igreja. Para o pastorado é diferente. Aqueles que são de fato Pastores, chamados por Deus para esse ofício, sentem em sua alma a indelével chama do Espírito a impulsioná-lo para realizar o ministério para o qual foi chamado, pois ele é uma dádiva de Deus a igreja, conforme o texto de Ef 4.11.
O palestrante nas entrelinhas também questionou a doutrina reformada que enfoca essa área, e enfatiza uma diferenciação entre Pastores e Presbíteros, mas é importante observar que ela não está errada quando advoga uma diferenciação entre os Presbíteros docentes (os Pastores) e regentes (os não Pastores). Olhando para texto de 1 Tm 5.17, Paulo ensina a igreja para que olhe com mais deferência para os Presbíteros que se afadigam no ministério da Palavra, fazendo Paulo assim uma certa distinção entre aqueles que foram chamados para o ministério da Palavra e aqueles que simplesmente ajudam no governo espiritual da Igreja. “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” 1 Tm 5.17.
As sete cartas do Apocalipse foram destinadas as sete igrejas que na época existiam na Ásia Menor, e nelas são identificadas as pessoas responsáveis por elas diante de Deus, chamadas de anjos das Igrejas. Os melhores comentadores bíblicos, dentre eles o Ph.D. Simon Kistemaker, autor do comentário do livro de Apocalipse, editado pela Editora Cultura Cristã, dizem que esse anjo é o pastor da igreja, aquele que tem a liderança dentro delas, sendo responsabilizado por Deus pelo desempenho da mesma. [“Ao anjo da igreja em Éfeso, escreva.” Jesus instruiu João a escrever uma breve carta endereçada ao pastor da igreja em Éfeso].
O Dr. William Hendriksen comentando a carta aos Efésios, sobre o assunto em questão, disse o seguinte: “Posto que aqui em 4.11 todos os que servem a igreja de uma forma especial (grifo nosso) – não somente os apóstolos, profetas e evangelistas, mas também pastores e mestres – são designados como dons de Cristo para a igreja, eles devem ser objetos do amor de toda a igreja”. Ainda comentando esse mesmo assunto na parte que cabe a pastores e mestres, ele disse: “O que temos aqui, portanto, é uma designação de ministros de congregações locais, presbíteros docentes (ou supervisores) (grifo nosso). Por meio da exposição da Palavra estes homens pastoreiam os seus rebanhos”.
Escrevendo a Tito, um jovem Pastor seu companheiro de ministério, Paulo orienta aquele obreiro a instituir Presbíteros nas igrejas locais de Creta. “Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei” Tt 1.5. Observe os irmãos, neste texto, um detalhe importante: Quem iria liderar o processo de estabelecimento de Presbíteros dentro das igrejas eram os próprios membros das igrejas ou uma pessoa que tinha um ofício reconhecido de liderança no meio do povo de Deus? A resposta é clara, pois Paulo delegou essa tarefa ao Pastor Tito.
É verdade que o Novo Testamento usa as palavras Presbíteros, Bispos e Anciãos como termos gregos intercambiáveis, ou seja, que significam a mesma coisa. Mas é verdade também que Paulo quando fala dos dons do ministério de Cristo em Efésios 4.11, usa uma grega palavra diferente para nomear Pastores. “Esta é a única ocasião no NT em que o substantivo poimen ocorre como título de um líder da Igreja. Sem dúvida é a palavra proveniente da aplicação da figura de linguagem do pastor, a qual caracterizava o relacionamento do Senhor Jesus com seus discípulos. Jesus é o bom pastor (o poimen ho kalos)”. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo (Efésios, Colossenses, Filemom), Arthur G. Patzia.
Mesmo não existindo uma hierarquia dentro da Igreja do Senhor, a exemplo de que existe nos meios empresariais, militares e em algumas instituições eclesiásticas, pois todos os crentes estão nivelados no que se refere a serem receptáculos das bênçãos oriundas da obra redentora de Cristo, há de se observar que o Senhor fez uma distinção entre quem tem um ofício dentro da Igreja e quem não tem, senão vejamos: “Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” Hb 13.17. “Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus, que estão em Filipos, com os bispos e diáconos” Fp 1.1.
Concluímos este artigo dizendo que existe uma diferenciação entre Pastor e Presbíteros, sendo Presbítero, que significa supervisor, um termo genérico e Pastor um termo especifico, apesar de a eles pertencerem à mesma atividade de pastoreio do rebanho do Senhor, conforme explicitado em At 20.28 e 1 Pe 5.1-4. Ainda nesta conclusão é conveniente lembrar que os Congregacionais têm como paradigma, em relação ao assunto, o que se segue: “Ministro do Evangelho é o ofício perpétuo a que são consagrados os formados em Teologia ou, em casos especiais, os não formados, com privilégios e deveres específicos, sendo este ofício o primeiro em dignidade na Igreja” “Designa-se pastor o cargo do Ministro do Evangelho eleito e empossado em uma ... Igreja, com responsabilidade executiva e administrativa”. “Presbítero é o oficial auxiliar do ministro que pastoreia na administração dos interesses espirituais das igrejas”. Ainda nesta conclusão lembramos aos irmãos que nós da ALIANÇA temos em alta estima os Presbíteros, e que este signatário sugestionou quanto era relator da reforma dos instrumentos normativos da Denominação, a criação de um quadro especial de ministros para contemplar os Presbíteros, dando-lhes certos privilégios e também responsabilidades, sendo os mesmos jurisdicionados também por nossa Denominação.
JPA, 28/03/2009, Rev. Eudes Lopes Cavalcanti
Pastor da III IEC/JPA